sleep station

Em seguida, decido partir para a tapeçaria, uma vez que fios, tintas e tecelagem constituem a restauração que consome mais tempo. Ao desenrolá-la, fico impressionado com a elaboração de seu desenho, e desanimado com o seu grau de deterioração.

Valentes guerreiros persas lutam com leões famintos e temíveis djins. Um exército invasor, munido de carros de guerra e tanques soviéticos, é enfrentado por soldados heróicos armados com lanças e AK-47s, enquanto deuses enfurecidos e helicópteros com metralhadoras pairam no céu obscurecido pela guerra. Algumas imagens estão escurecidas por manchas de sangue, e outras partes foram danificadas por balas e tiros. A tapeçaria exaça cheiro de fumaça e pólvora. Limpá-la e devolvê-la à sua sua antiga glória será difícil – eu terei de tecer novamente as partes mais avariadas, usando materiais mais modernos e, ao mesmo tempo, técnicas tradicionais – mas a tarefa que tenho pela frente não é impossível.

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Noturno

Ao redor e ao redor da praça deserta / passeamos de braço dado com o Diabo. / Nenhum som, salvo o bater de seus cascos / e o eco de sua risada e da minha. / Tínhamos bebido o negro vinho. // Gritei: “Apostemos uma corrida, Mestre!” / “Que importa”, gritou, “qual de nós / corre mais esta noite? / Não há nada a temer esta noite / sob a impura luz da lua!” // Então olhei-o nos olhos, / e ri de sua mentira / e do medo constante que tentava disfarçar. / Era verdade o que haviam dito e repetido: / Estava velho – velho.”

O Sonho da Borboleta

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.

Foi assim que a família descobriu o local que viriam a chamar de “pátio de dentro”. Na verdade, estava mais para um jardim de palácio, com árvores altas mais velhas que qualquer uma que já tinham visto. Havia paredes antigas decoradas com afrescos; quanto mais olhavam para elas, mais a família reconhecia aspectos de suas próprias vidas nestas estranhas alegorias desbotadas.

Shaun Tan, Contos de Lugares Distantes

Certa tarde, quase anoitecendo, voltando de uma trilha de bicicleta e passando pelos becos das ruas no caminho de casa, recordei de uma das agonias de quando era criança. Percebi que nunca passaria por todas as ruas, nunca entraria em todas as casas. A maioria dos lugares sempre serão apenas parte de um cenário que cruzamos, e seus interiores, repletos de coisas e histórias, permanecerão trancados e intocados. Acho que é o mesmo tipo de agonia de quando se descobre que a Terra gira e você está preso, montado num carrossel descontrolado.

Isso me faz lembrar das ruas do Japão. Não aquelas super iluminadas, cheias de neon. As estreitas com luzes fracas que passam entre as casas, que ligam os condomínios e dão em grandes campados desertos. Era gostoso descer do apartamento de madrugada no outono, pegar uma vodka de lichia numa das máquinas de bebida e vaguear no silêncio conversando sobre coisas aleatórias.

Arcano XV - conto de Ivan Mizanzuk

O Diabo fuma.

Descobri isso na noite em que me visitou. Eu era um homem comum. Empresário, dono de empresa bem-sucedida, nunca tive preocupações espirituais. Outros tempos.

Ele estava na porta do quarto, observando. Sei que foi Seu olhar que me acordou.

Conversamos.

Perguntas óbvias primeiro: quem é você, o que faz aqui. 

Constance dormia ao meu lado e não demonstrava incômodo com o barulho.

Ele explicou que estava em uma missão de libertação. Sem muitos detalhes. Disse que o que falam sobre Ele é injusto, que a maldade não existe senão no coração do homem. Culpá-lo por qualquer mal era um engano. Também falou que tinha muito poder e que seria de grande auxílio àqueles que se dispusessem a ajudá-Lo.

Citou-me a Serpente no relato bíblico. Explicou como era Ela o verdadeiro símbolo de santidade, e não o Cristo. Afinal, havia sido sua “tentação” que permitiu aos homens viverem sua plena humanidade. “Moralidade barata” – suas palavras. “Ditadura de um Deus sádico e voyerista”. 

Em algum momento, tudo fez sentido. E o Diabo queria minha ajuda.

Acordei achando que era tudo sonho.

Mas ele voltou na noite seguinte.

Por desconfiança, resisti aos seus pedidos de favores, mas certa vez arrisquei. “Ligue para este número e diga tal coisa”. Um ato bobo, nada de mais. Na mesma semana, minha empresa fechou um acordo milionário. Não creio que foi coincidência.

Os anos passaram.

Novos pedidos surgiram e eu os fazia, sem mais questionar. Pequenas coisas, insignificantes: uma outra ligação aqui, uma carta enviada lá.

A cada novo favor atingido, minha empresa crescia. Constance engravidou. Tivemos nosso primeiro filho. O Diabo cumpriu sua promessa de ajuda.

Um dia pediu que eu matasse Constance. Seria a última tarefa a ser cumprida antes de minha emancipação. “Um sacrifício necessário. Você será um deus ao final do processo”. O ato final para a liberação da própria condição humana.

Apenas o pensamento de matá-la já era insuportável. O ato em si, impossível.

Mas o Diabo continuava me visitando toda noite, perguntando por que eu ainda não a havia matado. Eu dizia que estava pensando no assunto. Mentira. Era medo.

Hoje de manhã, Constance disse que teve um sonho – um  sonho com o Diabo. Disse que vem sonhando com Ele já fazia um tempo. Ele pediu para que ela me matasse. Ela riu do sonho. Debochou do Diabo. Falou que me amava.

Eu a matei ali mesmo, na mesa do café.

Ele nunca mais me visitou.

http://f.cl.ly/items/2a17320i3o1c0I0h3c0v/Arcano%20XV%20-%20Ivan%20Mizanzuk.pdf

Achamos bom quando, depois de uma tempestade ou outro infortúnio enviado pelo céu, devastando toda uma colheita, encontramos junto às cercas vivas e aos arbustos que margeavam o caminho um pequeno lugar que se salvou, onde algumas espigas se mantiveram em pé. Quando oportunamente o sol volta a brilhar, elas crescem solitárias e despercebidas, nenhuma foice as corta para os grandes celeiros, mas ao final do verão, quando estão maduras e carregadas, mãos pobres e devotas as procuram; e espiga por espiga colhida, cuidadosamente amarradas, muito mais respeitadas do que feixes inteiros, são carregadas para casa, e durante o longo inverno são o mantimento, talvez a única semente, para o futuro. Assim nos sentimos ao contemplar a riqueza da poesia alemã de outrora e constatar que nada se manteve vivo, até mesmo as lembranças se perderam, e restaram apenas as canções populares e esses contos inocentes. Os lugares junto à lareira, o forno de lenha na cozinha, escadarias, feriados ainda festejados, pastagens e florestas no seu silêncio e, antes de tudo, a pura fantasia são as cercas que pouparam e transmitiram a tradição de uma época à outra. Kassel

يضيع جمال الحياة عندما تنظر بعينيك فقط

Mas, para um sonhador de coisas, haverá “naturezas mortas”? As coisas que foram humanas podem ser indiferentes? As coisas que foram nomeadas não revivem no devaneio do seu nome? Tudo depende da sensibilidade sonhadora do sonhador. Chesterton escreve: “As coisas mortas têm tal poder de apoderar-se do espírito vivo que eu me pergunto se é possível a alguém ler o catálogo de um leilão sem cair sobre coisas que, bruscamente apreendidas, fariam correr lágrimas elementares.”

Só o devaneio pode despertar essa sensibilidade. Dispersas nos leilões, oferecidas a qualquer comprador, as coisas, as doces coisas, reencontrarão cada qual o seu sonhador? Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: “Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário.”

Bachelard

Os dias passaram, as chuvas de inverno começaram. Final de outubro, e as provas do meu livro chegaram. Comprei um carro, um Ford 1929. Não tinha capota, mas corria como o vento, e, com a chegada dos dias secos, fiz longos passeios pela Costa Azul, até Ventura, até Santa Bárbara, até San Clemente, até San Diego, seguindo a linha branca do pavimento, debaixo do olhar das estrelas, o pé no acelerador, a cabeça cheia de planos para outro livro, uma noite depois outra, todas elas juntas soletrando dias de sonho que eu nunca conhecera, dia serenos que eu receava questionar. Eu rondava a cidade com o meu Ford: descobri vielas misteriosas, árvores solitárias, casas velhas em ruínas, saídas de um passado perdido. Dia e noite, eu vivia no meu Ford, parando apenas para pedir um hambúrguer e uma xícara de café em estranhos cafés de beira de estrada. Era a vida ideal para um homem, perambular e parar e depois continuar, sempre seguindo a linha branca ao longa da costa errante, um tempo para relaxar ao volante, acender outro cigarro, e buscar estupidamente significados naquele desconcertante céu do deserto.