sleep station

Os dias passaram, as chuvas de inverno começaram. Final de outubro, e as provas do meu livro chegaram. Comprei um carro, um Ford 1929. Não tinha capota, mas corria como o vento, e, com a chegada dos dias secos, fiz longos passeios pela Costa Azul, até Ventura, até Santa Bárbara, até San Clemente, até San Diego, seguindo a linha branca do pavimento, debaixo do olhar das estrelas, o pé no acelerador, a cabeça cheia de planos para outro livro, uma noite depois outra, todas elas juntas soletrando dias de sonho que eu nunca conhecera, dia serenos que eu receava questionar. Eu rondava a cidade com o meu Ford: descobri vielas misteriosas, árvores solitárias, casas velhas em ruínas, saídas de um passado perdido. Dia e noite, eu vivia no meu Ford, parando apenas para pedir um hambúrguer e uma xícara de café em estranhos cafés de beira de estrada. Era a vida ideal para um homem, perambular e parar e depois continuar, sempre seguindo a linha branca ao longa da costa errante, um tempo para relaxar ao volante, acender outro cigarro, e buscar estupidamente significados naquele desconcertante céu do deserto.

Lá estava, acabado, devastador. Dobrei os manuscritos, coloquei a nota com eles dentro de um grande envelope, fechei e enderecei a Samuel Wiggins, Posta-Restante, San Juan, Califórnia, selei e enfiei no meu bolso traseiro. Então subi as escadas, atravessei o saguão e fui até a caixa de correio na esquina. Passava um pouco das três horas de uma madrugada incomparável. O azul e branco das estrelas e do céu eram como cores do deserto, uma suavidade tão palpitante que tive de parar e me perguntar como podia ser tão adorável. Nem uma folha das palmeiras sujas se mexia. Nenhum som era ouvido.

Tudo o que era bom e mim me emocionou naquele momento, tudo o que eu esperava do profundo e obscuro significado na minha existência. Aqui estava a placidez interminável e muda da natureza, indiferente à grande cidade; aqui estava o deserto abaixo dessas ruas, ao redor dessas ruas, esperando que a cidade morresse para cobri-la com a areia eterna uma vez mais. Assaltou-me uma sensação aterrorizadora de entender o significado e o destino patético dos homens. O deserto sempre esteve aqui, um animal branco paciente, esperando que homens morressem, que civilizações lampejassem e se apagassem na escuridão. Então os homens me pareceram bravos e fiquei orgulhoso de figurar entre eles. Toda a maldade do mundo não parecia maldade de todo, mas inevitável, boa e parte daquela luta interminável para manter o deserto sob controle.

Olhei para o sul na direção das grandes estrelas, e sabia que naquela direção ficava o deserto de Santa Ana, que debaixo das grandes estrelas, num galpão, havia um homem como eu, que provavelmente seria engolido pelo deserto antes de mim, e que na minha mão eu tinha um esforço seu, uma expressão da sua luta contra o silêncio implacável para dentro do qual estava sendo tragado. Assassino ou barman ou escritor, não importava: seu destino era o destino comum de todos, seu fim o meu fim; e aqui, nesta noite, nesta cidade de janelas escuras havia outros milhões como ele e como eu: tão indistintos quanto folhas de grama. Viver já era duro. Morrer era uma tarefa suprema. E Sammy ia morrer em breve.

John Fante, Pergunte ao Pó

Like a medieval artisan, my father believed in teaching the family craft to youngsters at an early age. He gave me my first camera when I was 12 years old. When I was 16, he arranged for me to follow a famous National Geographic photographer around on his assignment in England.

"Stick right with him," my father told me. "If he puts a 50-millimeter lens on his camera, you do the same. Shoot exactly the way he does from dawn till dark."

At this point my mother chimed in. “But when it gets dark, you quit copying what he does!”

a primeira república do centro era uma casa velha e tinha um ar meio grécia antiga com aquelas texturas de mármore falso nas paredes. lembro de escutar esse solo de trompa no sofá, vendo o sol tingir todos dos cômodos – desde a sacada, até chegar fraco no escuro banheiro. já faz uns 6 anos.

For someone who was never meant for this world, I must confess I’m suddenly having a hard time leaving it. Of course, they say every atom in our bodies was once part of a star. Maybe I’m not leaving… maybe I’m going home.

Impetuosa música da tempestade,

Estrondo que rola livre, ribombando pradarias afora,

O forte farfalhar das florestas copadas – o vento das montanhas,

Turvas formas personificadas – vocês, orquestras escondidas,

Vocês, serenatas de fantasmas, instrumentos a postos,

Misturando aos ritmos da Natureza as línguas de todas as nações;

Acordes percutidos, vastas composições – Ó corais,

E sem forma, livres, as danças religiosas – vocês chegadas do Oriente,

Vocês que acompanham o correr dos rios, roncando com as cataratas,

Ó sons de armas distantes, a cavalaria em galope,

Os campos ecoando os mais diversos sinais,

As tropas em tumulto, preenchendo a alta noite, curvando-me sem forças,

Entrando em meu solitário quarto escuro, por que me prendem?

A última pessoa que levou essas questões a sério foi John Milton, trezentos e cinqüenta anos atrás. Você já leu os panfle­tos dele sobre o divórcio? Na época dele, Milton ganhou mui­tos inimigos por causa desses textos. Estão aqui, no meio dos meus livros, com as margens cheias de anotações feitas nos anos 60. “Teria nosso Salvador aberto para nós esta porta perigosa e fortuita do matrimônio para que ela se fechasse sobre nós como se fora o portão da morte […]?” Não, os homens não sabem nada — ou então agem conscientemente como se não soubes­sem nada — a respeito do lado duro e trágico daquilo que estão assumindo. Na melhor das hipóteses, pensam com estoicismo: é, eu sei que mais cedo ou mais tarde vou ter que abrir mão do sexo nesse casamento, mas em troca vou conseguir outras coi­sas, mais valiosas. Mas será que eles se dão conta da renúncia que estão aceitando? Ser casto, viver sem sexo — bom, como é que a gente vai aceitar as derrotas, as concessões, as frustrações? Ganhando mais dinheiro, ganhando o máximo de dinheiro pos­sível? Fazendo tantos filhos quantos for possível? Isso ajuda, mas não chega aos pés da outra coisa. Porque a outra coisa se funda­menta na sua existência física, na carne que nasce e na carne que morre. Porque é só quando você fode que tudo aquilo de que você não gosta na vida, tudo aquilo que derrota você na vida, é vingado da maneira mais pura, ainda que efêmera. É só nesse momento que você está vivo do modo mais limpo, que você é você mesmo do modo mais limpo. Não é o sexo que é corrup­ção — é o resto. Sexo não é só atrito e diversão superficial. É tam­bém a maneira como nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte. Não se esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um poder limitado. Eu sei muito bem quais são os limi­tes desse poder. Mas me diga uma coisa: existe poder maior?

O Animal Agonizante

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